China recomenda uso da cloroquina no combate ao coronavírus

A China desaconselhou o uso de hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com coronavírus — o medicamento não tem comprovação científica de eficácia contra a doença, mas foi defendido pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo dos Estados Unidos, Donald Trump. No entanto, o governo chinês recomendou o uso de um medicamento semelhante para a malária, chamado cloroquina.


As recomendações fazem parte de novas diretrizes de tratamento do covid-19, divulgadas na quarta-feira (19) e atualizadas pela primeira vez desde 3 de março. As informações são do jornal South China Morning Post.


Os remédios são normalmente utilizados contra a malária. Mesmo com formulações diferentes, eles utilizam a mesma substância, a cloroquina, e apresentam benefícios clínicos similares. A hidroxicloroquina, no entanto, é comumente vista como mais segura por causar menos efeitos colaterais.


"O uso de hidroxicloroquina, ou o uso combinado dela com azitromicina, não é recomendado", disse a Comissão Nacional de Saúde do país. Mas as mesmas diretrizes afirmam que a cloroquina pode continuar a ser usada. "Algumas drogas podem demonstrar algum grau de eficácia em estudos de observação clínica, mas não há antivirais efetivos confirmados por estudos duplo-cego e controlado por placebo", acrescenta.


Por não apresentar benefícios contra a covid-19, a Organização Mundial da Saúde (OMS) descontinuou as pesquisas com a hidroxicloroquina em junho. No mesmo mês, a agência reguladora de drogas dos Estados Unidos, FDA, revogou a autorização para uso emergencial da cloroquina e da hidroxicloroquina.


Entre cientistas que defendem a cloroquina está o chinês Zhong Nanshan, responsável pela descoberta do coronavírus da síndrome respiratória aguda grave (Sars) e referência em tratamento respiratório naquele país. Em uma pesquisa publicada em maio, o médico afirmou que em testes com 197 pacientes, o remédio pareceu ter benefícios contra o vírus. No entanto, no estudo, os resultados foram comparados a dados históricos de outros pacientes, em vez de serem comparados com um grupo randomizado que recebeu placebo, o que é considerado padrão em testes clínicos.


Há também quem indique que as duas medicações são semelhantes, o que torna as novas diretrizes controversas, como o especialista em medicina respiratória da Universidade Chinesa de Hong Kong, David Hui Shu-cheong:


"Os dois medicamentos são iguais. Três organizações já abandonaram o uso da hidroxicloroquina. Essas incluem a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o estudo clínico britânico Recovery, já que testes mostraram que não há benefícios", diz Hui.