Governo da Bahia corre contra o tempo para trazer outra montadora para o polo e promete realocar parte da mão de obra desempregada, mais de 9 mil pessoas.



O fechamento da fábrica da Ford em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, deverá causar uma perda de 2% da riqueza gerada em toda a Bahia, embora o complexo industrial respondesse diretamente por 0,4% da riqueza no estado, conforme estudo da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), autarquia ligada à Secretaria do Planejamento (Seplan).

“Isso porque, embora o setor represente 0,4% do valor adicionado à economia, sua saída impacta em outros setores da economia, reduzindo o produto de segmentos que se relacionam direta ou indiretamente com o setor automotivo”, explica Armando de Castro, diretor de Indicadores e Estatísticas da SEI. No total, portanto, segundo a superintendência, o encerramento das atividades da Ford implica em uma redução de R$ 5 bilhões no valor adicionado à economia baiana.


Além disso, o complexo da Ford respondeu, em 2019, por 4,5% das exportações baianas e foi responsável pela arrecadação de 3% do ICMS do Estado, aponta o estudo. O governador Rui Costa já havia informado que a arrecadação total gerada pela montadora caiu de R$ R$ 200 milhões, em 2018, para cerca de R$ 100 milhões no ano passado. Em Camaçari, o prejuízo anual com a perda do Imposto Sobre Serviços (ISS) será de aproximadamente R$ 30 milhões, de acordo com a prefeitura.



Conforme cálculo da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), a Ford e sistemistas – fabricantes de peças e acessórios para veículos, tintas e vidro, por exemplo – empregavam pouco mais de 7,2 mil pessoas, das quais 4,9 mil somente na montadora. Na avaliação do diretor da SEI, porém, com o efeito multiplicador sobre a economia, podem ser atingidos até 60 mil empregos indiretos. A cadeia automotiva também gerava uma massa salarial de R$ 515 milhões, mais R$ 333 milhões em encargos sociais, aponta a Fieb. “O impacto do fechamento da Ford na Bahia, sem dúvida, é muito grande. Trata-se do quinto maior setor industrial do estado, representando 5,4% do VTI [Valor de Transformação Industrial] da indústria de transformação do estado e 4,1% do emprego na indústria”, diz Ricardo Kawabe, gerente de Estudos Técnicos da Fieb.



Apesar dos números expressivos, Castro destaca o declínio da indústria de veículos automotores, “um dos setores que mais influenciou o resultado negativo da indústria baiana em 2020”. De acordo com o diretor da SEI, o segmento foi duramente atingido pela pandemia do novo coronavírus, com sua produção totalmente paralisada entre março e junho e retomada somente na segunda quinzena de junho. “No período de janeiro a outubro de 2020, segundo a Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, a produção física recuou 45,1%, enquanto os emplacamentos de automóveis e comerciais leves recuaram 30,2%, segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores. Além da queda da demanda no mercado interno, provocada pela pandemia, a indústria automobilística reflete a queda das vendas externas, principalmente para a Argentina. A produção física do setor ainda se encontra 17,8% abaixo do nível alcançado em fevereiro deste ano”, afirma Castro.



O governo do Estado criou um grupo de trabalho para tentar, a longo prazo, atrair outra montadora para a região. Além disso, anunciou a elaboração de um banco de dados para tentar realocar os trabalhadores da Ford em outras empresas. Secretários municipais de Camaçari também estiveram reunidos na terça-feira (12) para discutir alternativas e apresentar uma pauta. Para o secretário de Governo, José Gama Neves, será preciso adequar a legislação municipal em busca de novas empresas. “Cabe à gestão apontar caminhos e saídas, além de ter o entendimento legal e jurídico para que possamos atingir esse objetivo”, diz. “Diante disso, a gestão precisa mostrar uma pauta concreta de enfrentamento, com estudo da legislação vigente no município para adaptação no sentido de viabilizar a manutenção das empresas, incentivar o crescimento delas e também a chegada de novos investimentos, seja no setor de turismo, indústria, comércio, entre outros, para que possam gerar uma contrapartida positiva e a população não sinta, de forma drástica, a presença da crise no município”, acrescenta Neves. // A Tarde.