Kellen Mota Fraga, estudante de odontologia, era uma mulher atrás de um sonho. Como tantas outras jovens que vencem na vida pelo esforço, que demanda sacrifícios diários com família, transporte e alimentação, Kellen estava muito próxima de se formar em odontologia. O jaleco, encomendado à costureira, era ao mesmo tempo uma exigência dos consultórios onde tinha aulas práticas e motivo de orgulho por representar alguns passos da linha de chegada. Nunca o vestirá. Sua vida foi interrompida bruscamente no bairro onde fica a casa de costura, num pedaço de uma cidade sitiada pelo crime.

Kellen foi advertida pelos criminosos de que deveria parar o carro, se identificar e dizer o que estava fazendo no local. Eram 'soldados' armados que a abordavam, servindo a um 'estado paralelo', que se espalha como metástase pelo espaço urbano e “governa” desafiando instituições criadas exatamente para garantir a lei, a ordem e os direitos fundamentais dos cidadãos, entre eles o de se locomoverem livremente na cidade, no Estado e no País, mas que lamentavelmente tem fracassado.

Um “estado do crime” que cresceu no vazio deixado pela indiferença dos políticos e de governos que se corromperam. Um 'estado' que se sobrepõe as leis, que estabelece as próprias regras, que mata todos os dias e espanta pelo seu avanço sobre comunidades inteiras.

Quando o poder legal reage é para deixar as coisas como estão, em ações pirotécnicas, que se eliminam uma facção, fortalecem outra.

O fato é que Manaus vive uma guerra, não do governo e suas instituições contra o crime. Mas uma guerra de poder que envolve apenas criminosos, divididos em várias facções.